sexta-feira, 3 de junho de 2011

O mercado exponencial do fruto proibido

Steve Jobs apresentando o iPad.
Steve Jobs é, além de um grande visionário, um ícone pop. Essa verdadeira adoração, que não apenas beira o fanatismo em vários casos, não surgiu simplesmente da noite para o dia como um passe de mágica. O grande líder da Apple, uma das empresas mais valiosas do mundo atualmente, conquistou o seu lugar ao sol com garra, disciplina, uma gama de informações sobre como deveria ser os novos produtos e, sobretudo, boas estratégias de marketing, contrariando brilhantemente o batido conceito de "o cliente é quem manda" ao adotar suas próprias conclusões sobre o que é melhor e o que pode (ou deve) ser descartado num produto final, sempre valorizando cada vez mais a extrema qualidade e a incrível usabilidade, embora isso acabe pesando um pouco mais no bolso do consumidor final. E isso dá certo, é um sucesso. A marca hoje é um símbolo do desejo de consumo e, embora não seja onipresente nos lares como os produtos da rival Microsoft, por exemplo, alcança lucros extraordinários, sendo hoje a segunda maior empresa do mundo na bolsa de valores. O desejo por seus produtos chegou a tal ponto que, recentemente, um garoto chinês absurdamente vendeu um de seus rins para o mercado negro de órgãos com a intenção de adquirir um iPad 2. Claro que nem todos chegam a esse ponto lamentável, mas é inegável que os produtos e o marketing da Apple são fortes o suficiente para provocar o consumismo desenfreado de muitas pessoas, fazendo-as trocar o recém-comprado iPad pelo iPad 2 instantaneamente no dia do lançamento do novo produto, por exemplo.
Para continuar, vale ressaltar alguns pontos históricos da vida de Jobs e da própria Apple: para começar, a Apple não foi uma empresa que "nasceu grande", realizando grandes lançamentos desde o início, pelo contrário. Foram fabricadas pouquíssimas unidades do seu primeiro computador vendido ao varejo, chamado Apple I, que já apresentava conceitos bem divergentes em relação ao restante do mercado da informática. Um despontamento significativo da empresa no mercado, porém, só apareceu com o sucessor do primogênito, o Apple II, que ainda era bem utilizado até o início da década de 90, embora tivesse sido lançado no final dos anos 70, poucos anos depois do Apple I. Também sinalizo que nem sempre a empresa foi bem sucedida após a sua fundação, chegando quase à falência após a saída de Steve Jobs dez anos depois da fundação da empresa, paradoxalmente obrigado a sair pelo conselho de administração da empresa que o próprio fundou em parceria com Steve Wozniak em meados da década de 70. No período em que permaneceu fora da Apple, de 1985 até 1997, Jobs fundou a NeXT em 1985, também uma empresa de informática, e comprou a Pixar Animation Studios da Lucasfilm, em 1986, por alguns milhões de dólares, estúdio que originalmente não possuía esse nome e produziu a primeira animação infantil totalmente realizada através de desenhos computadorizados (o famoso Toy Story, lançado em 1995 resultante de uma parceria entre a Pixar e a Disney). No final do ano de 1996, a Apple, beirando à falência por não conseguir mais agradar seus consumidores, comprou a NeXT, interessada principalmente nos trabalhos desenvolvidos pela empresa e também em trazer de volta à empresa o talento de Steve Jobs. Já a Pixar, depois de alguns desentendimentos comerciais com a Disney, foi adquirida pela parceira comercial por quase 8 bilhões de dólares em 2006, tornando Jobs o maior acionista individual da Walt Disney Company. Porém, não entrarei tanto nos detalhes históricos e nem pretendo dissertar sobre algo que diz respeito estritamente à tecnologia (até porque pouco entendo da história toda e dos detalhes técnicos de cada produto lançado).
Só para citar algumas das inovações que nos influenciam até hoje, a Apple, sob comando de Jobs, foi a empresa responsável pelo desenvolvimento do sistema operacional que iniciou a era das janelas, ícones e do essencial mouse na informática. Sim, esse modelo tão disseminado que conhecemos hoje (principalmente através do Windows) não foi uma inovação popularizada pela Microsoft ou de qualquer outra empresa do passado. Os computadores eram vistos até então como algo de outro mundo pela grande maioria das pessoas, e a Apple, numa cartada bastante inteligente, resolveu quebrar esse paradigma revelando aos EUA o Macintosh, lançado em 1984, no intervalo do popular Super Bowl daquele ano (jogo que decide o campeão da Liga Nacional de Futebol Americano, a NFL, da temporada do ano anterior). As maiores inovações do Macintosh eram justamente aquilo que nós conhecemos tão bem hoje: um computador com interface gráfica e um ponteiro que auxiliava nas tarefas realizadas no computador, numa época onde os computadores pessoais apresentavam somente textos na tela e o teclado era o único meio de interação entre o usuário e a máquina (telas essas, inclusive, que detonavam a visão dos usuários, o que popularizou a figura do nerd de óculos com lentes grossas). Com isso, a Apple conseguiu mostrar aos EUA (e, praticamente, ao mundo) que o computador deles não era algo de outro mundo para seres humanos aparentemente de outro mundo, demonstrando bem o conceito diferenciado da publicidade, fazendo uma clara referência ao ano de lançamento do produto e o livro 1984, de George Orwell, cujo um dos personagens, o vilão Grande Irmão, também influenciou diretamente na idealização do reality show Big Brother (apenas por curiosidade, a obra foi lançada sob o pseudônimo do jornalista inglês Eric Arthur Blair). Embora esse vídeo publicitário da Apple tenha sido vinculado uma única vez, a exibição num meio tão popular de um vídeo elaborado sensacionalmente causou e ainda causa reações até hoje. É possível assisti-lo no YouTube, felizmente, graças as tecnologias de hoje (graças, ainda que indiretamente, ao Steve Jobs).
Embora já conhecesse superficialmente a figura do Steve Jobs e o seu trabalho realizado na Apple, algo que eu vivi e realmente me chamou a atenção foi o lançamento do primeiro iPhone, em 2007. Na época, achava que seria apenas mais um smartphone com câmera e suporte a músicas no formato MP3 que enviava e recebia e-mails. Até aí, nada de mais, a Nokia e tantas outras empresas já tinham jorrado no mercado uma penca de produtos que faziam a mesma coisa. Achei que o único grande diferencial seria a possibilidade de interagir somente com toques na tela, além da já esperada qualidade do produto em si (a confecção, a resolução da tela e outros itens mais técnicos). De fato, subestimei o Steve Jobs. Afinal, um produto que vendeu um milhão de unidades em menos de três meses, apresentando versões pouco diferenciadas numa única cor, tinha de apresentar algo muito diferente de um smartphone da Nokia com qualidade superior dos componentes. Um produto que chamou a atenção de toda a mídia, não só a especializada em tecnologia, deveria ter algo mais do que uma boa linha de fabricação. A Apple deveria apresentar muito mais do que um produto bonito e bem acabado combinado com ações de marketing bem elaboradas. E, surpreendentemente, apresentou. Além da facilidade de uso do sistema otimizado para o smartphone da maçã mordida, Jobs preocupou-se em desenvolver um sistema não tão somente simples para o usuário utilizar, mas também complexo. A complexidade apresentava-se especificamente na oportunidade de desenvolvedores criarem aplicativos que tornassem o uso diário ainda mais gratificante para os consumidores, criando maneiras mais fáceis e rápidas para chegar a algo bem elaborado (embora muitos desenvolvedores, também, lançarem programas praticamente inúteis, mas que demonstravam uma perspectiva curiosa e interessante da tecnologia empregada no smartphone). E, mais uma vez, Steve Jobs surpreendeu o mundo. Mas não seria a última.
Eis que, mais recentemente, a Apple apresenta o tão falado tablet idealizado por Jobs, o iPad. Embora poucos saibam, o mercado de tablets já existia antes mesmo do iPad e de outros similares lançados pouco tempo antes baseados nos rumores do novo lançamento da Apple. Contudo, Jobs foi o responsável por popularizar os tablets como conhecemos hoje: uma grande tela onde se interage, basicamente, através de toques na tela com os dedos, chegando a substituir com maestria várias atividades antes restritas ao computador pessoal. Embora o iPad possua o mesmo sistema do iPhone, ele foi totalmente otimizado para o tablet, tendo aplicativos exclusivos para ele, o que acabou gerando uma boa diferença entre um smartphone e um tablet e impediu que o iPad ganhasse a fama de "iPhone gigante". E, mais uma vez, Steve Jobs surpreendeu o mundo. E alguém duvida que não será a última? Ele conseguiu demonstrar que um tablet deveria ser muito mais que um equipamento portátil com tela sensível ao toque executando um sistema operacional de computador. Os dois modelos de tablet lançados pela Apple, o iPad e o iPad 2, correspondem atualmente a grande maioria dos tablets adquiridos pelos usuários (mais de 90%, vale destacar), num mercado infestado de outros tantos tablets de tantas outras fabricantes.
Para a Apple, os mínimos detalhes são tão importantes quanto os grandes detalhes. Ou seja, até uma embalagem é inteligentemente pensada. A assistência que a empresa fornece aos seus usuários, a AppleCare, também é digna de aplausos, fornecendo ao seu usuário assistência em todo o mundo, independentemente de onde foi comprado o produto. Steve Jobs também contraria o mercado e os concorrentes de diversas formas. Enquanto seus concorrentes lançam vários produtos em várias linhas, Jobs, ao retornar à Apple, enxugou o número de produtos e dedicou-se no desenvolvimento de poucos, o que certamente contribuiu para oferecer produtos melhorados, já que o foco da empresa mantém-se num único produto de um tipo e não em diversos produtos bem parecidos. As diferenças entre as versões, porém, são em detalhes que não influenciarão diretamente na experiência do consumidor, como, por exemplo, versões do iPhone com mais ou menos memória. Visualmente, em todo caso, são iguaizinhos, o que ajuda a dar a identidade visual dos produtos da marca. Outro diferencial é a preocupação em fornecer a melhor experiência ao consumidor final: esse é o motivo de só computadores fabricados pela Apple rodarem seus sistemas, ao contrário do Windows. Não precisa ser nenhum cientista da computação para entender que um sistema operacional que funciona numa base muito menos diversificada conseguirá, no final das contas, ser muito melhor otimizado nessa base, enquanto o Windows preocupa-se em lançar uma nova versão pretendendo agradar a todos, aqueles que compraram computadores em 2006 e em 2011 com as mais distintas configurações, impossibilitando que recursos mais avançados sejam, de fato, implementados. Além de tornar o produto final melhor, a estratégia da Apple permite lucrar duplamente com a venda do hardware e do software preso ao seu equipamento, enquanto a Microsoft só lucra, em grande parte, com o software.
Claro que, durante toda essa história, nem tudo foram flores. Alguns produtos da Apple idealizados por Jobs fracassaram, mas isso não tirou o brilho dos seus futuros lançamentos, permitindo que ele aperfeiçoasse aprendendo com os erros. Existem também vários pontos polêmicos, como a invenção do mouse, que ainda é uma incógnita: dizem que a ideia foi roubada por Jobs numa visita à Xerox. Se foi roubada ou não, ou se a ideia apenas influenciou Jobs, ainda é incerto, mas não podemos tirar o mérito de ter popularizado o mouse e torná-lo tão usual a ponto de ainda ser imprescindível depois de mais de 25 anos do lançamento do Macintosh. Outro ponto que causa bastante estranhamento de muitos é em relação ao feedback dos usuários: nem sempre Jobs implementa as ideias trazidas pelo feedback, apenas as que julgar necessárias, melhorando, em alguns casos, o que foi pensado pelos usuários. E esse ponto questiona se realmente o cliente é quem manda ou ele está disposto a seguir a ideia de um idealizador. Nesse caso, milhões de consumidores satisfeitos apontam a segunda alternativa, embora existam alguns clientes insatisfeitos com um quesito ou outro (não se agrada a todos, o que ele pôde fazer foi agradar a grande maioria).
Observar as atividades de Steve Jobs vai muito além de observar apenas o desenvolvimento da tecnologia, trata-se, também, de observar um empreendedor perspicaz e um marqueteiro de sucesso. Ele é um homem de grandes e boas ideias que revolucionam o mercado, o "anti-clichê" que deu certo. Ao contrário do que muitos possam pensar, nunca tive sequer um produto da Apple e nem pretendo tê-lo por agora, apenas por julgar que, hoje, ainda não necessito deles para a produção das minhas atividades corriqueiras. Porém, observando a empresa e como ela posiciona-se, colocando seus produtos para figurarem em filmes e séries de sucesso, por exemplo, embora os personagens não citem uma qualidade sequer dos dispositivos, concluo que a ideia resultante naquele vídeo publicitário de 1984 ainda está presente até hoje: tornar os produtos da Apple os queridinhos dos consumidores, torná-los produtos simpáticos. Afinal, além de desenvolver produtos de qualidade, a Apple desenvolve para o usuário básico e o avançado ao mesmo tempo, conseguindo atingir os mais diversos públicos com sucesso.
Para quem quiser aprofundar um pouco mais sobre as estratégias da Apple e sobre como funciona a cabeça de Steve Jobs, já que não dá para escrever sobre tudo num único texto, recomendo a leitura do livro A Cabeça de Steve Jobs, de Leander Kahney, e o filme Piratas da Informática – Piratas do Vale do Silício, do diretor Martyn Burke, que retrata, além das revoluções de Jobs, o surgimento da era da informática destinada aos consumidores gerais. O livro citado no texto, 1984, de George Orwell (que está presente no acervo da Biblioteca Central da UEFS e que teve duas adaptações cinematográficas, a mais recente delas do ano de 1984), também merece ser lido.

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