domingo, 17 de julho de 2011

Compartilhamento: Preconceito social na internet

Quando a crítica exalta o preconceito.
O Orkut é uma espécie de Praia Grande dos sites de relacionamento: todo mundo já se divertiu ali, mas alguns sentem vergonha de dizer agora. Até brinquei com uma amiga estes dias; ao vê-la tirando uma foto bonita, eu disse:
Olha só! Foto de Orkut, hein?
A resposta foi meio seca:
Facebook, por favor.
Vez ou outra recebo alguns e-mails com o título "as pérolas do Orkut". São fotografias com gente se divertindo de maneira supostamente ridícula. Coisa de pobre, diriam os antenados permanentemente às novas tendências. O estranhamento com estas cenas é compreensível: a recente mobilidade social ofereceu às pessoas que tempos atrás mal podiam comer carne e se divertir a compartilhar valores próprios das classes médias brasileiras, difundidos pelos meios de comunicação e que anteriormente estavam meramente restritos ao imaginário da população de baixa renda. Uma foto com uma garrafa de uísque ao lado de uma piscina de plástico causa perplexidade na classe média que se orgulha de, vez ou outra, ser convidada a frequentar algum salão coabitado pela "elite branca". Alguns destes e-mails trazem comentários do tipo "maldita Casas Bahia que vende câmera digital em 36 vezes sem juros", como se os bens de consumo da classe média brasileira – forjada nos governos de Vargas, Juscelino e militares – não fossem oriundos das "suaves" prestações de crédito pessoal oferecido pelos bancos de varejo.
Pode até parecer estranho alguém que recentemente adentrou no mercado de consumo reproduzir a sua maneira os valores e o modo de vida da classe média que historicamente habitou o imaginário popular como um mero sonho distante, mas, da mesma forma, parece ridículo e fraudulento quando a indústria cultural – que tem a classe média como principal consumidora – incorpora, apropria-se e reinventa o significado da produção cultural da classe pobre brasileira. Os ritmos e danças criados nas vilas e favelas brasileiras tornam-se um subproduto industrializado e comercializado para "gente branca" consumir. Os resultados são deformações como o baile funk para patricinhas popozudas nas baladas caras de São Paulo, o pagode choramingado, os camarotes de escola de samba e as micaretas que transformaram o carnaval do povo em uma espécie de apartheid itinerante. Mas o pior de todos é o conceito de forró universitário e sertanejo universitário; ou seja, a indústria cultural se apropria da cultura popular e depois cria uma etiqueta para diferenciar a estética do forró dos universitários do forró de empregada doméstica e o sertanejo universitário do cowboy de picape da música do caipira ingênuo. Com toda sinceridade, um boyzinho cantando que "o Morro do Dendê é ruim de invadir" me parece muito mais ridículo do que ver alguém se divertindo no Piscinão de Ramos ou na Praia Grande. Como disse anteriormente, a classe média brasileira foi criada pelo Estado na era Vargas, ou seja, há apenas oitenta anos. Isso quer dizer que quase ninguém com minha idade têm um avô que nasceu rico. Os que tiveram a felicidade de construir um patrimônio têm muito viva na mente a memória de pobreza.
Os universitários do forró e do sertanejo recentemente puderam contrariar as estatísticas e alcançar o grau superior. Agora, eles se sentem em condições de "apedrejar" a Geisy, não porque ela seja escandalosa, mas por ela ser considerada ridícula. E o "senso comum" decidiu que seu corpo – supostamente feio – não lhe dava direito de se sentir atraente e usar um vestido curto. A classe média se apavora com a pobreza, sente medo dela, tem a pobreza muito viva na memória e rapidamente incorpora como seus os interesses e a ideologia da elite com medo de cair na escala social ao associar-se com quem deveria estar "embaixo". Quando aquele que estava "embaixo" emerge e pode também usufruir os bens de consumo (comprar celular e televisão, viajar de avião e adquirir um automóvel e a famigerada câmera digital), os que estavam "em cima", automaticamente, num clique, sentem-se mais pobres. As fotos do Orkut apavoram porque, através delas, alguns enxergam tudo o que mais temem: a igualdade.
No Brasil, poucos se sentem à vontade com a igualdade. Este é o país dos camarotes VIP, seja na balada, nos hospitais e/ou nas universidades. Não seria diferente nas redes sociais.

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O texto acima foi escrito por Rafael Castilho para o Blog do Rafael Castilho.
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